O mapa do medo: cerco judicial a bolsonaristas radicais tem prisões e “exílio”

A escalada do bolsonarismo mais radical, por ora suavizada por um aceno de paz do presidente Jair Bolsonaro, vai deixando vítimas nas colunas da militância mais dedicada ao chefe do Executivo. Processos, cadeia, fuga da Interpol e exílios autoimpostos estão entre os destinos enfrentados por militantes que se aliaram a Bolsonaro no ataque a autoridades e instituições.

No cálculo desses aliados mais próximos do chefe do Executivo federal, o recuo na retórica do presidente pode significar um arrefecimento no cerco judicial imposto por órgãos como Procuradoria-Geral da República (PGR), Polícia Federal, Supremo Tribunal Federal (STF) e Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

É nesse pensamento que se fiam, por exemplo, o jornalista Oswaldo Eustáquio e o caminhoneiro Marcos Antônio Pereira Gomes, o Zé Trovão. Ambos se tornaram foragidos e se esconderam na Cidade do México após o ministro Alexandre de Moraes, do STF, decretar a prisão dos dois, no âmbito de inquérito que apura a promoção de atos antidemocráticos.

Eustáquio disse ao Metrópoles, na sexta-feira (10/9), que o Supremo havia retirado sua ordem de prisão – informação que a Corte não confirma, porque o processo tramita em sigilo. O influenciador já havia passado um ano entre a cadeia e o regime domiciliar de prisão também por ordem do STF. Segundo o jornalista, se os deputados bolsonaristas que pediram um habeas corpus para Trovão obtivessem sucesso nessa medida judicial, os dois voltariam imediatamente ao Brasil. Com o eventual retorno ao país, os apoiadores do presidente têm a intenção de pressionar pela soltura de outros militantes, como o deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ), preso desde fevereiro deste ano por ter ameaçado ministros do STF.

Na noite de sexta-feira, contudo, o ministro do STF Edson Fachin negou o habeas corpus para Zé Trovão.

Veja um panorama da situação dos principais bolsonaristas diante do cerco judicial ao radicalismo de extrema-direita:

Editoria de arte/Metrópoles

As investigações

Também estão presos por incentivarem de alguma forma rupturas institucionais, nos atos do último dia 7 de setembro, o jornalista e youtuber Wellington Macedo e o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, que ganhou direito a cumprir a medida em um hospital na última semana.

Sem ordem de prisão, mas investigados por participação no financiamento de atos potencialmente violentos contra o STF, estão o cantor Sérgio Reis e o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja), Antônio Galvan.

Reis foi o primeiro a tornar público o plano de setores do agro e caminhoneiros mais radicalizados – liderados por Zé Trovão – para dar um ultimato ao Senado, exigindo a destituição de ministros do STF, e “parar o país” enquanto isso. Galvan é suspeito de coordenar o financiamento para o intento antidemocrático.

O autoexílio

Três militantes bolsonaristas se mudaram para os Estados Unidos e ficaram menos vulneráveis às autoridades brasileiras. O ex-ministro da Educação Abraham Weintraub viajou para a América do Norte em junho do ano passado, sob pressão de uma investigação no Supremo por ameaças a ministro da Corte.

Ele viajou ainda como ministro e, pelo cargo, escapou da quarentena obrigatória imposta pelo país por causa da pandemia de coronavírus. Em solo americano, foi exonerado da função desempenhada na pasta federal e, 40 dias depois, assumiu posto no Banco Mundial por indicação do governo brasileiro.

Seu irmão, Arthur, acompanhou-o pouco mais tarde, ao deixar a assessoria do presidente Jair Bolsonaro e ganhar cargo na Organização dos Estados Americanos (OEA). Ele é investigado pela CPI da Covid como suposto coordenador do gabinete paralelo do Ministério da Saúde, grupo que orientou Bolsonaro a ignorar a ciência e optar pelo negacionismo na gestão da pandemia.

Já o jornalista Allan dos Santos, dono do portal bolsonarista Terça Livre, também estava na mira do STF quando divulgou a denúncia – nunca provada – de que duas embaixadas (da China e da Coreia do Norte) teriam escutas para espionar o governo brasileiro. Sob a alegação de que estaria sendo perseguido, o blogueiro viajou para os EUA em julho de 2020.

Nenhum dos três tem mandado de prisão em aberto ou alguma ameaça, mas eles nunca mais voltaram ao Brasil desde que deixaram o país. Vale ressaltar que Arthur Weintraub teve a convocação para a CPI aprovada, porém o depoimento nunca foi marcado.

Na contramão dos que buscaram esse autoexílio, voltou ao Brasil o principal ideólogo do bolsonarismo radicalizado, o escritor Olavo de Carvalho. O jornalista retornou ao país, depois de vários anos, para tratar problemas de saúde na rede pública brasileira. Carvalho não é alvo de qualquer investigação direta, apesar de sua influência intelectual sobre quase todos os alvos do cerco judicial.

Os desmonetizados

Outros influenciadores digitais bolsonaristas que têm enfrentado dificuldades com as autoridades são os que tiveram seus canais no YouTube desmonetizados (impedidos de gerar lucro por visualizações) por decisão do corregedor-geral do TSE, Luis Felipe Salomão, no último dia 16 de agosto.

Salomão determinou a interrupção do lucro de 14 canais que estavam divulgando notícias enganosas sobre o sistema eleitoral brasileiro.

Entre os canais afetados pela decisão, constam Te Atualizei, Folha Política, Terça Livre, Oswaldo Eustáquio, Canal Universo, RAVOX, e Jornal da Cidade On Line.

Da redação com o Metrópoles

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