Volta de Lula ameaça união do centrão em torno de Bolsonaro para 2022

A elegibilidade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), permitida pela decisão do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Edson Fachin, colocou em risco o plano do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de contar com o apoio integral de sua nova base aliada ao projeto de reeleição.

Conhecido pelo pragmatismo e pelo senso de oportunidade, o centrão —bloco formado por PP, PL, Republicanos, Solidariedade, PTB, PSD, PROS, PSC, Avante e Patriota— começou a fazer nesta semana projeções sobre o cenário eleitoral após a decisão de Fachin, que será submetida ao plenário do Supremo.

A aposta de dirigentes das legendas é de que dificilmente o bloco partidário se manterá unido no próximo ano em torno do presidente. A avaliação é de que, embora Bolsonaro largue na frente por ter o controle da máquina federal, Lula é um nome competitivo que ameaça o favoritismo do chefe do Executivo.

Segundo caciques do centrão, diante da possibilidade de uma disputa polarizada, a tendência é que as siglas sigam na base aliada neste ano, mas façam acenos políticos tanto para Bolsonaro como para Lula. Os desembarques só devem ocorrer no ano que vem, quando o cenário eleitoral estiver mais claro, indicando um favoritismo.

Hoje, na opinião de líderes partidários, cinco legendas do centrão tendem a apoiar Bolsonaro, ou seja, têm menos chances de deixar a base aliada. São elas: PTB, PP, PSC, Patriota e Republicanos.

Apesar de serem mais afinadas ao presidente, integrantes desses partidos não descartam uma mudança caso o cenário eleitoral sofra mudança substancial.

“Nós estaremos firmes com o presidente e já decidimos isso em convenção nacional do PTB. Apoiaremos Bolsonaro na reeleição”, disse à Folha o presidente nacional da legenda, Roberto Jefferson.

Já os partidos com mais probabilidade de apoiar um adversário do presidente e deixar a base aliada, na avaliação de caciques do centrão, são PROS, Avante e Solidariedade.

Na eleição de 2018, nenhum deles apoiou Bolsonaro. Os dois primeiros se aliaram a candidatos de esquerda: Fernando Haddad (PT) e Ciro Gomes (PDT), respectivamente.

O PL e o PSD são considerados uma incógnita. O apoio deles, segundo integrantes das legendas, vai depender dos acordos para as disputas estaduais e do desempenho dos presidenciáveis nas pesquisas de intenção de voto. Em caráter reservado, membros das legendas não descartam romper com Bolsonaro.

Apesar de ele contar com o poder de barganha da máquina federal, líderes das siglas não consideram que a entrega de cargos de primeiro escalão possa garantir apoios. Lembram que o centrão contava com cargos na gestão da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e, ainda assim, deixaram o governo e apoiaram o impeachment da petista quando ele se mostrou inevitável, em 2016.

“Só o Lula pode vencer Bolsonaro e só Bolsonaro pode vencer Lula”, diz o presidente nacional do Republicanos, deputado Marcos Pereira (SP).

Com a mesma lógica, eles avaliam que, caso a derrota de Bolsonaro também se mostre inevitável, dificilmente contará com o apoio da maior parte de sua base aliada. Por isso mesmo, nos próximos meses a expectativa é a de que Lula comece a articular encontros com dirigentes do centrão, começando por PL e PSD.

Na tentativa de assegurar apoios, mesmo que não sejam garantia de fidelidade, Bolsonaro voltou a avaliar mudanças ministeriais. O movimento que começou com a cessão do Ministério da Cidadania ao Republicanos deve ter seguimento com a substituição do general Eduardo Pazuello, na Saúde, por um nome do PP.

Partido do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (AL), eleito com a ajuda de Bolsonaro, o PP tem dois nomes favoritos para o posto: os deputados federais Luiz Antonio Teixeira (RJ) e Ricardo Barros (PR) —que já chefiou a pasta no governo Michel Temer.

O presidente, no entanto, tem afirmado a assessores palacianos que uma troca não deve ser feita neste momento.

Nos próximos meses até as eleições presidenciais, deputados e senadores observam uma série de variáveis que podem influenciar no posicionamento de cada partido para outubro de 2022, a começar pela definição de qual será a legenda de Bolsonaro, novela que deve ter fim em abril, segundo as promessas dele.

Nesta semana, Bolsonaro afirmou estar conversando com alguns partidos. Citou como exemplo o PMB e o PSL. O último é o mesmo pelo qual disputou e venceu a eleição de 2018. Para voltar à sigla, pediu, no entanto, que sejam expulsos desafetos políticos, como o senador Major Olímpio (SP) e a deputada federal Joice Hasselmann (SP).

Para aliados do centrão, o errático enfrentamento de Bolsonaro à pandemia do coronavírus, hoje o principal motivo de desgaste e perda de popularidade do governo, pode ser ignorado se o presidente conseguir adquirir vacinas e imunizar a população. Ele, inclusive, já havia sido aconselhado por nomes do bloco a focar sua energia em vacina e economia.

Nos últimos dias, Bolsonaro tem demonstrado tentar seguir o conselho, equilibrando acenos à sua base mais radical com uma guinada em seu discurso anti-imunização.

O presidente passou a defender a vacinação da população e já sinalizou que será vacinado. O Palácio do Planalto avalia até criar uma campanha publicitária de rádio e televisão a favor da imunização.

Para integrantes da base aliada, ao ter optado por seguir fazendo um contraponto a prefeitos e governadores a favor de medidas de restrição, Bolsonaro tem conseguido atrair o apoio de boa parte de patrões e empregados, mesmo que represente um aumento do número de mortes pela doença.

Por outro lado, é consenso no bloco do centrão que, caso o presidente não lance um programa social duradouro, que perdure com o fim do pagamento do auxílio emergencial, Bolsonaro dificilmente garantirá apoio do eleitorado nordestino, região mais dependente do Bolsa Família, programa federal que tem a paternidade de Lula reconhecida.

Da redação com Folha de SP

 

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