Karl Marx e a crítica da economia política

Por Salin Siddartha

 

Escrito em resposta ao questionamento de um leitor

 

Os textos de Karl Marx não podem ser vistos como se tivessem sido construídos a partir do nada, na conta de embasados em um vazio de ideias que fossem inexistentes antes de eles terem sido redigidos. Essa é uma visão tacanha que até mesmo alguns “marxistas” transmitem: “antes de Marx, nada!”

Ao contrário, a acumulação do conhecimento é um processo intelectual de incorporação da teoria precedentemente enunciada, e isso é inegável, a despeito de qualquer posição sectária. Cada teoria que é expressa pela Ciência ou pela Filosofia dialoga com todas as que foram proferidas na história do conhecimento. Segundo se pode depreender do que expõe Mikhail Bakhtin, em “Marxismo e Filosofia da Linguagem”, todo ser humano participa de um diálogo histórico que teve início quando o primeiro homem falou pela primeira vez – diálogo que continua sem parar pelos séculos e milênios da diacronia da espécie.

Embora o primeiro volume de “O Capital”, publicado em 1867, se intitule “Crítica da Economia Política”, a dialética hegeliana inspirara Marx a criticar a Economia Política – conforme já alude o próprio título do livro – já dez anos antes, quando escreveu “Contribuição à Crítica da Economia Política”, um dos clássicos da dialética materialista. Tal formulação crítica foi possível metodologicamente em virtude de Marx ter adquirido uma aprofundada assimilação da obra de George Hegel, especialmente do que o pensador católico alemão escreveu em “A Grande Lógica”, em meu ousado modo de ver, e nos textos em que Hegel conceituou a visão idealista da História sob nova égide cristã.

Marx aproveitou essa produção intelectual idealista, que Hegel e, indubitavelmente, Immanuel Kant também o fez (haja vista os comentários de Herbert Marcuse em “Razão e Revolução”) para expressar um pensamento crítico, entretanto materialista, criador da epistemologia que fez da História um dos três principais universos científicos da humanidade, ao lado da Matemática (a começar pelos gregos) e da Física (a partir de Galileu). Dessa forma, historicamente, Marx justifica a linearidade evolutiva das atividades econômicas por causa da variação do processo produtivo no decorrer do tempo, efetuado à medida que seus meios vão moldando-se em conformidade com a dependência demonstrada pela estrutura econômica em relação à época em que acontecem.

Na teoria marxista, só no capitalismo é que todos os fatores usados diretamente na produção (seja a matéria prima, seja a mão-de-obra ou a maquinaria) são mercadorias, visto que o valor de troca de cada produto está ligado ao processo produtivo inteiro. Por isso é que, destarte depender do valor de uso, o valor de troca o nega no circuito das trocas, impedindo seu exercício até chegar ao seu consumo como mercadoria a ser comprada.

A genialidade de Karl Marx se revela ao atestar que não é a relação com o tempo do trabalho gasto que atua no custo da produção, mas sim a condicionante criada pelo fato de os agentes terem acesso aos processos tecnológicos que potencializam a produtividade do trabalho, isto é, da aplicação da ciência e da tecnologia à produção

Apesar de os economistas ingleses Adam Smith, de forma mais simplista em “Riqueza das Nações”, e David Ricardo, de forma bastante sofisticada na obra “Princípios de Economia Política e Tributação”, terem sido os primeiros intelectuais a conceituarem o valor de uso e o valor de troca, com o mérito de Ricardo tê-los inserido no núcleo da teoria econômica como fatores substanciais da mercadoria, e não Marx, este os utilizou e desenvolveu na formulação do processo de produção e comercialização da mercadoria, aprofundando aqueles fatores ao vê-los presentes em todos os insumos mercadológicos; e os fez conservando-os na concepção deles na qualidade de substância, nesse sentido tal qual Ricardo já o havia concebido, para sermos honestos.

Além disso, notadamente Ricardo subsidia as considerações da obra de Marx quando este analisa a forma como o modo de produção capitalista se articula na sobredeterminação da mais-valia. Ora, isso se dá com a concepção ricardiana do capital recebido como resultado da força de trabalho revelada diferente do capital investido no processo produtivo. Quem estiver disposto a comprovar essa assertiva pode confirmá-la na forma como David Ricardo relata a teoria do valor.

Nesse aspecto, a genialidade de Karl Marx se revela ao atestar que não é a relação com o tempo do trabalho gasto que atua no custo da produção, mas sim a condicionante criada pelo fato de os agentes terem acesso aos processos tecnológicos que potencializam a produtividade do trabalho, isto é, da aplicação da ciência e da tecnologia à produção – ao contrário do que pensavam aqueles economistas ingleses.

Portanto, Karl Marx “conversa” com uma matriz manifesta por Immanuel Kant, George Hegel, Adam Smith, David Ricardo e tantos outros pensadores cuja enumeração e destrinçamento seria deveras cansativa e impossível de ser redigida neste curto e despretensioso artigo. Isso se percebe lendo sua vastíssima obra. Então, o levantamento de como ocorre a crítica da Economia Política se dá em comparação do que ele escreveu com relação à intertextualidade que seus livros evocam.

 

* Salin Siddasrtha é graduado em Letras, pós-graduado stricto-sensu em Linguística, professor credenciado em Filosofia pelo Conselho Nacional de Educação, radialista, assessor parlamentar na Câmara dos Deputados, comendador pela Ordem Tiradentes da PMDF, ex-administrador regional do Cruzeiro-DF

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