“Velho centro” e “nova esquerda” impõem duro golpe a Bolsonaro e PT

No segundo turno, resultado favoreceu partidos de centro e centro-direita. PT perdeu espaço na esquerda e Bolsonaro virou coadjuvante

 

 

O resultado do segundo turno das eleições municipais deste ano, realizada nesse domingo (29/11), reforçou o bom desempenho eleitoral que partidos de centro e centro-direita, como MDB, PP e DEM, tinham obtido nos Executivos municipais do país no primeiro turno. A rodada final de votação somou a essa vitória da “velha política” sobre a “antipolítica” um avanço sobre as capitais e as maiores cidades do interior.

O DEM, partido dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (AP), foi vitorioso em quatro capitais, entre elas o Rio de Janeiro (RJ), com o ex-prefeito Eduardo Paes vencendo o candidato bolsonarista e atual prefeito da cidade, Marcelo Crivella (Republicanos), e Salvador (BA), onde o vice-prefeito de ACM Neto, Bruno Reis, tinha vencido ainda no primeiro turno.

Os tucanos (PSDB) também venceram em quatro capitais, com destaque para São Paulo (SP), maior reduto eleitoral do país. Aliado do governador do estado, João Doria (PSDB), o prefeito Bruno Covas se reelegeu com 59% dos votos válidos, deixando para trás Guilherme Boulos (PSol) – uma das estrelas da “nova esquerda” que tenta resistir ao avanço da direita.

“O segundo turno foi uma consolidação das vitórias do primeiro: uma guinada do eleitor brasileiro em direção ao centro e à centro-direita”, sintetiza o professor Ricardo Caldas, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (Unb), em conversa com o Metrópoles.

“Partidos mais antigos, como MDB e PSDB, perderam prefeituras em termos numéricos, mas essas siglas tiveram vitórias muito importantes nas capitais no segundo turno. Ou seja, perderam em quantidade, mas ganharam em qualidade. Já o DEM ganhou em quantidade e em qualidade”, completa.

Centro-esquerda

Merecem destaque também nestas eleições os partidos da chamada “esquerda moderada”, segundo Caldas, como o PDT e o PSB. As duas siglas conquistaram duas capitais cada – todas no Nordeste, principal reduto eleitoral do PT e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O PDT, de Ciro Gomes, saiu vitorioso em Aracaju (SE) e Fortaleza (CE), onde Sarto Nogueira derrotou o deputado federal Capitão Wagner (Pros), uma das apostas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) – que, como ocorreu na ampla maioria dos outros casos de apoiados pelo chefe do Executivo federal, não deu certo.

O PSB foi feliz em Maceió (AL) e Recife (PE). Na capital pernambucana, João Campos venceu a também deputada federal e prima Marília Arraes (PT) com 56,2% dos votos válidos, em em mais uma derrota do PT – que ficou sem nenhuma capital pela primeira vez desde a redemocratização.

“Essa eleição marca o fim da hegemonia petista. O PT sempre tratou outros partidos da esquerda como sócios menores. Agora, o voto da esquerda migrou para outros partidos, como PSol, PCdoB, PDT e PSB”, analisa o cientista político Márcio Coimbra, da faculdade Presbiteriana Mackenzie.

A avaliação é de que o presidente Jair Bolsonaro também saiu como um dos principais derrotados. Nesse segundo turno, Crivella, no Rio, esteve longe de se reeleger, e capitão Wagner não conseguiu vencer a hegemonia do PDT no Ceará, da família de Ciro Nogueira.

Ao todo, o atual chefe do Executivo federal pediu votos para 13 candidatos a prefeitos. Desses, apenas dois foram eleitos. O baixo desempenho se repetiu nos nomes lançados às Câmaras de Vereadores: de 46 postulantes formalmente estimulados por Bolsonaro, somente 10 conquistaram espaço nos legislativos municipais.

“A gente teve uma corrosão da política que ganhou destaque em 2018, com Bolsonaro, [Romeu] Zema (que virou governador de Minas Gerais) e [João] Doria (eleito governador de São Paulo), e a volta de políticos tradicionais, mas com um viés antiesquerdista. Ou seja, a direita está ganhando ainda”, diz João Feres Júnior, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ.

Em São Paulo, o candidato do PSol, Guilherme Boulos, apesar de derrotado nas urnas, ganhou imensa projeção com a campanha que fez. No primeiro turno, desbancou o ex-governador Márcio França (PSB) e o deputado federal Celso Russomanno (Republicanos) em uma das eleições mais disputadas da capital.

No segundo turno, obteve mais de 2,1 milhões de votos (40,6%) e se credencia como uma grande aposta da esquerda para as eleições de 2022. Ao lado de Luiza Erundina, a campanha do líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) ganhou adeptos em todo o Brasil.

“O segundo turno não trouxe uma grande modificação. O bolsonarismo perdeu, e o PT perdeu ainda mais, porque tinha esperança de conquistar ao menos uma capital. Mas, surpreendentemente, quem sai muito melhor do que entrou é Guilherme Boulos”, aponta o cientista político Carlos Melo, professor do Insper.

Para João Feres, o cenário político-econômico do país, marcado por uma profunda crise ocasionada pela pandemia do novo coronavírus, é favorável para o crescimento da esquerda. “Existe uma enorme incapacidade da direita em cuidar do problema distributivo”, complementa o especialista.

“Acho, inclusive, que Bolsonaro pode não chegar no segundo turno das eleições em 2020”, diz Márcio Coimbra. “a gente vai viver um período econômico muito difícil. E o eleitor rejeitou nessas eleições os candidatos ‘outsiders’, a nova política, a antipolítica, os aventureiros, aqueles que governam por narrativa”, afirma.

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