Como o Brasil pode reverter o caminho da desindustrialização?

No intervalo de janeiro a julho, a atividade industrial brasileira contraiu 9,7%, segundo os dados da Unido

Da Sputnik Brasil

 

A pandemia da COVID-19 parou a economia e paralisou a atividade industrial brasileira. A Sputnik explica dessa semana ouviu um especialista no setor, um representante do empresariado e um representante dos trabalhadores para saber como o Brasil pode reverter o caminho da desindustrialização.

A indústria brasileira fechou o segundo trimestre deste ano com uma ociosidade recorde. O Produto Interno Bruto (PIB) do setor ficou 15,4% abaixo de sua capacidade produtiva, segundo estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), divulgado pelo jornal O Estado de S.Paulo.

A última vez em que as empresas brasileiras usaram toda sua capacidade produtiva foi no último trimestre de 2013. O resultado representa o pior desempenho da série histórica da pesquisa, iniciada em 1998.

Mesmo com os dados revelados pelo IBGE na Pesquisa Industrial Mensal (PIM-Regional) que mostram que 12 dos 15 estados analisados já superaram o patamar pré-pandemia da COVID-19, a posição da indústria brasileira no ranking mundial continua baixa.

Um estudo divulgado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), com base nos dados divulgados pela Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido), mostra que o Brasil aparece em 26º lugar em uma classificação com 43 países.

No intervalo de janeiro a julho, a atividade industrial brasileira contraiu 9,7%, segundo os dados da Unido.

O economista responsável pelo estudo do Iedi, Rafael Cagnin, explicou que a redução da atividade industrial reflete diretamente no resultado da economia brasileira como um todo.

“Você tem uma queda bastante profunda, rápida e adversa com consequências negativas devido o peso da indústria no PIB brasileiro. A desindustrialização é um processo já de longo prazo, mas que vem passando recentemente por outra fase de agudização, seja pela crise de 2014 e 2016, seja agora por essa crise derivada da pandemia”, afirmou à Sputnik Brasil.

Cagnin lembrou que nos últimos dez anos, o Brasil conviveu com números ruins no setor.

“Na última década, seis anos foram de queda na produção industrial. Um ano foi de estagnação. Já são 70% da última década com desempenho desfavorável”, analisou.

Para o economista, a indústria do país sofre em duas frentes: uma delas seria a falta de modernização e outra seriam empecilhos da própria economia brasileira que atrasam o desenvolvimento industrial.

“O setor produtivo, a indústria brasileira, por mais que ele se modernize, por mais que ela aumente sua competitividade, ela vai perder esse aumento de competitividade por razões sistêmicas da economia brasileira. Ela ganha de um lado, mas perde porque você tem uma estrutura tributária que gera impostos acumulativos, impostos em cascata, que sobreoneram a indústria”, explicou.

Em entrevista à Sputnik Brasil, Carlos Abijaodi, diretor de Desenvolvimento Industrial da CNI (Confederação Nacional da Indústria), defendeu que a burocracia excessiva, a alta e complexa tributação que as empresas brasileiras são submetidas coloca o setor industrial brasileiro em desvantagem na comparação com outros países.

O nome dado pela CNI a essa estrutura de altos custos da atividade industrial é o chamado Custo Brasil.

“O Custo Brasil representa para a indústria em geral R$ 1,5 trilhão por ano”, disse Abijaodi.
Segundo o diretor de Desenvolvimento Industrial da CNI, o principal agravador do Custo Brasil é a alta carga tributária.

“O que mais impacta o Custo Brasil é a reforma tributária, esse cipoal tributário que nós temos no Brasil gera uma insegurança jurídica e tem um custo excessivo”, declarou.

Para Abijaodi, para aumentar a competitividade da indústria brasileira, o país precisa aprovar as reformas tributária e administrativa.

“O que nós precisamos reforçar urgentemente são as reformas que têm que ser feitas. Principalmente a reforma tributária e a reforma administrativa para que a gente ganhe competitividade nesses fatores estruturantes, nesses fatores que estão fora do comando da indústria”, afirmou.

Desindustrialização gera empobrecimento das famílias brasileiras, destaca sindicato
Na indústria foram perdidos cerca de um milhão de postos de trabalho no segundo trimestre em relação ao segundo trimestre do ano passado.

Para Wellington Damasceno, diretor administrativo do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, a taxa de desemprego no setor é um dos reflexos diretos do processo de desindustrialização.

“Você reduz a quantidade de empresa ou a capacidade da produção das empresas você automaticamente reduz o número de trabalhadores ligados ao setor. Esse é o primeiro impacto visível. Quanto menor a atividade de determinados setores, menor o número de trabalhadores nele”, disse à Sputnik Brasil.

Um dos efeitos gerados a partir da menor oferta de vagas no setor industrial, segundo Damasceno, é o empobrecimento das famílias brasileiras.

“A indústria é onde está a maior remuneração se você comparar todos os setores da economia brasileira, onde você tem a melhor renda salarial é na indústria. Quando você tem uma desindustrialização igual a que a gente está vivendo no Brasil você também tem um empobrecimento das famílias muito grande”, comentou.

Outro ponto, destacado pelo diretor administrativo do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, é que a desindustrialização reflete imediatamente também em outras atividades da economia brasileira.

“Você afeta a massa salarial, a massa real dos trabalhadores, você tem um encolhimento dela, mas você tem muitos ramos do serviço e do comércio que são ligados à indústria. Quando você tem o achatamento da atividade industrial você tem um rebatimento nesses outros setores da economia”, completou.

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