Quando, há seis meses, o presidente Jair Bolsonaro resolveu dar a guinada no seu governo que o aproximou dos partidos do Centrão, seu plano era trazer para dentro do Palácio do Planalto também o MDB. Da mesma forma como fez com o PP, o PL, o PSD, Republicanos e o PTB, sua intenção era também entregar cargos nos escalões mais altos do governo ao MDB.

A tentativa não deu certo. O MDB não aceitou os cargos. Mas, desde então, tal flerte teve consequências. Atraiu mais o MDB do Senado que o da Câmara. Especialmente, nomes do Norte e do Nordeste. Entre eles, os senadores Eduardo Braga (AM) e Renan Calheiros (AL).

Na sexta-feira (9), o jornalista Gerson Camarotti, da Globo News, noticiou que Eduardo Braga teria feito um convite a Bolsonaro para se filiar ao MDB. De acordo com uma fonte emedebista, se tal convite foi feito, foi um ato isolado do senador amazonense. Ou, uma outra hipótese que também se cogita, teria sido algo vazado de dentro do próprio Planalto na tentativa que é feita de aproximação com o partido.

Desde o fim do governo Michel Temer e do episódio da derrota de Renan Calheiros para Davi Alcolumbre pela presidência do Senado, há um trabalho forte de mudança intestina no MDB, no sentido de reduzir a força e a influência dos emedebistas tradicionais que até então tinham o comando do partido. Nomes como Braga, Renan ou Romero Jucá estão fora dos cargos titulares da atual Executiva do partido. Braga, Jucá e outros líderes de importância no passado, como Eunício Oliveira (CE) e Jader Barbalho (PA) são vogais.

Embora o atual MDB não se mostre fortemente contrário a Bolsonaro, há mais aproximação no Senado que na Câmara. No Senado, o partido forma um bloco com o PP, que hoje é governista. Na Câmara, está fora do chamado blocão, onde se integra o Centrão.

Em São Paulo, o MDB tem a candidatura a vice-prefeito na chapa de Bruno Covas, que tenta a reeleição. Trata-se do vereador Ricardo Nunes. Ou seja, na principal cidade do país, o partido está ligado à candidatura com mais chances hoje, de acordo com as pesquisas, de derrotar o nome apoiado por Bolsonaro, Celso Russomanno, do Republicanos.

Segundo esse emedebista, os deputados hoje estão mais próximos do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (RJ), e avaliam que não haveria hoje um sinal seguro quanto ao futuro de Bolsonaro que justificasse uma mudança brusca de posicionamento.

A atual popularidade conquistada pelo presidente está muito vinculada aos efeitos do auxílio emergencial de R$ 600 que foi pago durante a pandemia. Hoje, o valor desse auxílio já caiu à metade. O governo tenta ainda em vão obter fontes de financiamento para criar seu programa social, o Renda Cidadã, mas ainda não conseguiu achar uma fórmula para isso. Ou seja: as bases do que hoje fortalece Bolsonaro seriam pouco sólidas. Ninguém é capaz de dizer com certeza onde estará o presidente na metade do ano que vem.

No Senado, a proximidade de Bolsonaro com os emedebistas é evidenciada pelo próprio líder do governo, Fernando Bezerra Coelho (PE), que pertence ao partido. Braga também sempre foi alguém mais propenso à aproximação. Já Renan, que estava afastado, viu na chance de ajudar a reconciliar o ministro da Economia, Paulo Guedes, e Rodrigo Maia, a chance de retornar ao jogo, adotando o perfil pragmático que sempre lhe foi característico. Mas o emedebista não acredita que ele próprio convidaria Bolsonaro para se filiar ao partido ou que endossasse tal convite.

Durante muito tempo, as diferenças de estratégia e a disputa de comando no antigo PMDB dividiam deputados e senadores em grupos distintos. Mais recentemente, essas disputas internas no partido pareciam ter cessado. Agora, quando emerge o novo Bolsonaro pragmático e aparentemente mais disposto ao jogo da política nos seus moldes tradicionais, a tal divisão no partido que readotou sua antiga sigla dos tempos de regime militar tenha retornado também.