Guerra entre Armênia e Azerbaijão pode incendiar Rússia e Turquia

O mundo amanheceu no último domingo com as notícias sobre a eclosão de um conflito na região do Cáucaso que pode se proliferar pela Europa oriental

 

Nagorno Karabakh é uma região montanhosa, arborizada e sem litoral no sul do Cáucaso, que está no centro de um confronto de décadas entre a Armênia e o Azerbaijão. É um estado independente ‘de facto’, mas sem o reconhecimento ingternacional, que ocupa territórios reclamados pelo Azerbaijão e tem fortes laços com a Armênia.

No domingo passado (27), a região ganhou as manchetes na mídia internacional depois que os dois países entraram em confronto e decretaram lei marcial. A escalada da tensão gerou temores de uma guerra real entre as duas ex-repúblicas soviéticas.

Enquanto os dois lados se acusam de iniciar a violência, diferentes países e organizações pedem que a Armênia e o Azerbaijão parem os combates e evitem uma catástrofe. Por que esta pequena região está mantendo a comunidade internacional em suspense?

O pomo da discórdia

Povoado historicamente por armênios, durante o tempo da União Soviética, esse território estava administrativamente sujeito ao Azerbaijão com o nome de Província Autônoma de Nagorno Karabakh, embora gozasse de certo nível de autonomia.

No final da década de 1980, as relações entre armênios e azerbaijanos pioraram, levando a confrontos entre os dois grupos étnicos. Quando o Azerbaijão anunciou sua independência em 1991, a província – que em 1989 tinha 189.000 habitantes, 77% dos quais eram armênios – também se declarou independente.

Em 1994, a guerra terminou com a assinatura de acordos de cessar-fogo. Para controlar a trégua, foi criado o chamado Grupo de Minsk, subordinado à OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa) e presidido pela Rússia, França e Estados Unidos. Desde então, porém, a trégua foi violada em inúmeras ocasiões, e as últimas escaladas mais notáveis ​​ocorreram em abril de 2016 e em julho deste ano.

Por que a região tem importância internacional?

A região tem a Turquia a oeste, o Irã ao sul, a Rússia ao norte e enormes quantidades de reservas de hidrocarburantes do Mar Cáspio a leste, que transitam pelo Cáucaso, muito perto de onde os combates estão ocorrendo no momento.

Quem atacou primeiro?

Em 27 de setembro, os dois países relataram uma nova escalada do conflito, embora discordem sobre sua causa exata.

De Baku, capital do Azerbaijão, as autoridades afirmaram que o primeiro golpe foi desferido pelo Exército Armênio, que às 6 da manhã, hora local, atacou as posições militares e cidades do Azerbaijão com “armas de grande calibre, morteiros e artilharia”. Em resposta, as Forças Armadas do Azerbaijão lançaram uma contra-ofensiva “na linha de frente” com o país vizinho, disse um comunicado oficial.

Por sua vez, o primeiro-ministro da Armênia, Nikol Pashinyan, declarou que foi o Azerbaijão quem atacou primeiro, detalhando que os militares azerbaijanos usaram vários foguetes e sistemas de lançamento de aeronaves.

Do Ministério da Defesa da Armênia, eles apontaram que os azerbaijanos bombardearam objetos ao longo da linha de contato em Nagorno Karabakh, além da capital regional, Stepanakert, e acusaram Baku de ter planejado a operação com antecedência.

Reações internacionais

Como esperado, a reação internacional à retomada do conflito armado foi negativa. Em uma conversa telefônica com o governante armênio Pashinyan, o presidente russo Vladimir Putin afirmou que é necessário evitar uma nova escalada do confronto e, mais importante, interromper as operações militares em Karabakh.

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, falou com seus colegas do Azerbaijão e da Armênia e “pediu uma influência na situação para acabar com a violência”.

Outro vizinho dos dois países envolvidos no conflito, o Irã, pediu o fim das hostilidades sem demora e ofereceu sua ajuda para “iniciar as negociações entre as duas partes”.

Os co-presidentes do Grupo OSCE de Minsk expressaram “sérias preocupações sobre as violações generalizadas do regime de cessar-fogo”. A Otan também se manifestou a favor do fim do conflito.

A maioria das autoridades evitou culpar qualquer uma das partes, exceto o secretário de imprensa da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO), Vladimir Zainetdinov, que culpou o Azerbaijão pelas hostilidades.

Turquia apoia o Azerbaijão

O único país a expressar abertamente seu apoio ao Azerbaijão foi a Turquia, que no mesmo domingo acusou a Armênia de iniciar o conflito. “Condenamos veementemente o ataque armênio, que é uma clara violação do direito internacional e causou vítimas civis”, disse o Ministério das Relações Exteriores turco em um comunicado, acrescentando que apoiará Baku “por todos os meios”.

O presidente turco Recep Tayyip Erdogan exortou o povo da Armênia a “defender seu futuro” e apelou “a todo o mundo” para apoiar o Azerbaijão “em sua luta contra a ocupação e opressão”.

Na segunda-feira, o Ministério das Relações Exteriores da Armênia acusou a Turquia de estar diretamente envolvida em ações militares na zona de conflito. “Especialistas militares turcos que usam armas turcas, incluindo drones e aeronaves militares, estão lutando com os azerbaijanos”, diz o comunicado emitido pelo Ministério das Relações Exteriores da Armênia.

Citando fontes internas, a Armênia assegurou que a Turquia “está recrutando combatentes terroristas estrangeiros e os está enviando para o Azerbaijão”. Além disso, o ministério armênio enfatizou que o governo turco fornece “total apoio político e de propaganda ao Azerbaijão”.

O presidente da Armênia, Armen Sarkissian, denunciou que a Turquia participa dos combates em Nagorno Karabakh apoiando as forças do Azerbaijão com a ajuda de mercenários e combatentes F-16. O presidente destacou o diálogo como forma de resolver o conflito na disputada região de fronteira.

Pouco depois, Erdogan reiterou que a Armênia deve retirar-se imediatamente do território do Azerbaijão que está “invadindo” e que é hora de acabar com a crise em Nagorno Karabakh.

Por sua vez, o ministro da Defesa turco, Hulusi Akar, disse que a Armênia deveria parar com a ocupação das terras do Azerbaijão e enviar de volta os “mercenários e terroristas” que trouxe do exterior.

O principal conselheiro do primeiro-ministro armênio, Vagharshak Arutiunián, afirmou que uma guerra em grande escala está ocorrendo em Nagorno-Karabakh com a participação do Azerbaijão e da Armênia, e a Turquia está influenciando diretamente esta situação.

“Estamos nos preparando para uma guerra de longo prazo. Por quê? Porque eu digo novamente que o jogador principal aqui não é o Azerbaijão, mas a Turquia. E busca seus objetivos geopolíticos”, disse Arutiunián em entrevista a um canal do YouTube.

Segundo o responsável, a Turquia pretende obter uma ligação terrestre com o Azerbaijão, pelo que Nagorno Karabakh e a Armênia são um obstáculo neste sentido.

“A Turquia está se comportando hoje como o “exterminador” regional, disse. “Erdogan vai usar isso para seus jogos, como no Mediterrâneo, e ele também vai usar para se fortalecer na arena internacional.”

Informações da RT 

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