Incêndios engolem 64,8% do Parque Encontro das Águas, em Mato Grosso

Governo federal reconheceu a situação de emergência no Estado de Mato Grosso do Sul. Desde a semana passada, o ‘Estadão’ mostra in loco a devastação no Pantanal

Por Vinícius Valfré, enviado especial a Poconé, O Estado de S.Paulo

O governo federal reconheceu a situação de emergência no Estado do Mato Grosso do Sul em decorrência dos incêndios florestais que assolam a região. Uma mancha de cinza e lama escura se estende pela vasta área de incidência de onças-pintadas do Pantanal em Mato Grosso. Desde a semana passada, o Estadão mostra in loco a devastação na área. O fogo que destrói desde meados de julho o bioma mais úmido do planeta engoliu até agora 64,8% dos 108 mil hectares do Parque Estadual Encontro das Águas, nos municípios de Poconé e Barão de Melgaço.

Na tarde do último domingo, a equipe de reportagem do Estadão navegou pelos Rios Cuiabá, São Lourenço e Dois Irmãos, que cortam a reserva, para registrar as condições do parque, uma área de preservação criada em 2004 pelo governo mato-grossense que ainda hoje está na mira de grileiros.

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Animais não encontram refúgio em meio às queimadas no Pantanal. Foto: Dida Sampaio/Estadão
Quem caminha pelo parque se depara com uma fumaça que turva a paisagem e torna difícil manter os olhos sempre abertos. Num extenso trecho percorrido pela reportagem, o cenário era de terra arrasada. As raízes e a galharia da mata da várzea dos rios viraram carvão retorcido. Pântanos e pequenos lagos evaporaram. Do alto, o impacto do fogo prolongado surge em toda sua dimensão. A reportagem sobrevoou com drone três pontos distintos do parque. Mesmo com baixa visibilidade pela fumaça, as imagens capturadas mostram ilhas de vegetação numa extensa faixa queimada.

Pelas estimativas de biólogos, aproximadamente 80 onças viviam no parque até o início das queimadas – a esperança é que a maioria delas continue lá. Até o momento, os biólogos registraram três onças da região do parque com ferimentos. Dessas, uma foi resgatada em agosto e outra na última sexta-feira – o Estadão acompanhou o momento em que um felino de cerca 2 anos apareceu com as patas feridas na beira do Rio Corixo Negro, na área do parque. Uma terceira escapou antes que pudesse ser capturada e levada para tratamento.

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Fumaça prejudica visibilidade e torna difícil manter os olhos sempre abertos. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Os pesquisadores esperam que, pela capacidade física das onças, boa parte das espécies possa se salvar. “É difícil estimar o impacto de um fenômeno que ainda está acontecendo”, afirma o biólogo e doutor em conservação ambiental Fernando Tortato, trabalha na proteção dos felinos em Porto Jofre, localidade de Poconé.

Pesquisador da ONG Panthera, ele ressalta que o tamanho da área do parque destruída pode aumentar. “A gente ainda está tentando entender os efeitos das queimadas”, afirma. Ele observa que, nos incêndios dos anos anteriores, os animais podiam percorrer de cinco a dez quilômetros até encontrar água e proteção do fogo. Desta vez, não há refúgios para as espécies, especialmente roedores, cobras e lagartos, de menor porte. O fogo atingiu área vasta.

Pantanal em chamas

Corpo de Bombeiros de Mato Grosso e voluntários delimitaram mil hectares de vegetação bem preservada dentro do parque para as espécies se abrigarem caso o fogo consuma o que sobrou da reserva. Em volta, os agentes e biólogos abriram valas com intuito de impedir a chegada de possíveis focos.

Pelo Pantanal, não faltam bandos de bichos tentando escapar do incêndio e encontrar água e comida. Voluntários espalham frutas em trechos ainda verdes da Transpantaneira, principal acesso terrestre da região. Na manhã desta segunda-feira, 14, revoadas de garças, veados e capivaras estavam nas margens cinzentas da estrada.

Crime

Focos de incêndio não param de surgir ao longo da Transpantaneira. Ao Estadão, o coronel Paulo Barroso, do Corpo de Bombeiros, disse que a estrada poderá ser fechada nos próximos dias. O bloqueio deve acontecer em frente ao posto rodoviário no km 17, exatamente onde está o simbólico portal que dá as boas-vindas a quem chega ao Pantanal. Só agentes públicos, brigadistas e voluntários que atuam no salvamento dos animais deverão ter acesso.

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Cinza, lama e fogo predominam sobre o verde e criam a nova paisagem no Parque Encontro das Águas. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Secretário executivo do Comitê Estadual de Gestão do Fogo do governo de Mato Grosso, Barroso diz que nas margens da rodovia as queimadas são “propositais”. Um dos objetivos da medida de restringir a circulação de pessoas é justamente prevenir novos incêndios. “Infelizmente não tivemos a oportunidade de fazer o flagrante, mas percebemos que, pelas condições que ocorrem os incêndios, algumas pessoas entram nesse ambiente e fazem fogo de forma criminosa. E esse também é um dos motivos que iremos fechar a Transpantaneira tão logo seja decretado o estado de calamidade para Mato Grosso”, afirmou o militar.

Em meio às queimadas, covid preocupa

O fogo e a fumaça são vistos a distância, mas outro inimigo que ronda o Pantanal do Mato Grosso é invisível. Apesar da pandemia de covid-19 ter reduzido o fluxo de turistas dessa época do ano, grupos de visitantes que chegam por ar e terra a partir de centros urbanos podem trazer o novo coronavírus para ribeirinhos que estão a 150 km de um hospital.

Nas comunidades localizadas na extremidade final da Rodovia Transpantaneira, a quase 300 quilômetros de Cuiabá, os protocolos sanitários inexistem. Idosos convivem sem máscaras e crianças brincam na beira de rios, de onde partem forasteiros em busca dos animais típicos.

A eventual entrada da doença na região de Porto Jofre pode ser devastadora num lugar isolado de equipamentos estatais. Para serviços médicos e fúnebres depende-se da estrutura de Poconé e Cuiabá. Não raro, nativos enterram entes em jazigos dentro das propriedades rurais. No Pantanal, predomina a versão de que o vírus não é páreo para o calor de mais de 40°C. Em bate-papo com a reportagem em uma roda, moradores justificam a falta de máscara. “Covid não sobrevive aqui não”, diz um deles, sem lembrar que o micro-organismo circula no ar e pode ser transmitido num aperto de mão.

A primeira referência médica para assuntos relacionados à covid-19 na região fica no centro de Poconé, cidade de 32 mil habitantes. Os sinais de que o Brasil vive uma pandemia que matou 3.082 pessoas em Mato Grosso estão em algumas pousadas. Os visitantes chegam de máscaras de proteção fácil, mas logo se distraem com piscinas e cervejas. O calor que chega aos 45 ºC é um desestímulo à proteção.

A população desconhece casos de infecção nas redondezas, mas quem interage mais intensamente com turistas prefere a cautela. Em uma pousada visitada pelo Estadão, às margens do Rio Cuiabá, em Porto Jofre, a 145 quilômetros de Poconé, luvas e máscaras são exigidas na retirada do café da manhã. “O coronavírus não me preocupa, eu só uso a máscara por respeito às demais pessoas”, disse o engenheiro civil holandês Jean-Paul Middel, 33 anos. Ele ostentava uma máscara com desenho de um tucano. O estrangeiro sentiu que era hora de um período fora da Europa e quis que o risco valesse à pena. Pela primeira vez, foi parar no coração do Pantanal.

A doença, no entanto, não faz distinção das vítimas. Em julho passado, um dos líderes da etnia xavante em Mato Grosso, o cacique Domingos Mahoro, de 60 anos, morreu infectado pela doença. Diabético e hipertenso, o cacique morreu na capital mato grossense após ser transferido do interior do Estado. Mahoro, que era da aldeia Sangradouro, localizada próxima do município de General Carneiro (MT), era uma importante liderança indígena para a etnia xavante da região.

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