A periferia também está na moda

Acabou o tempo em que o glamour inacessível das passarelas ditava a moda de cima para baixo

Por Kêmily Barros

Por muito tempo as favelas representaram somente a criminalidade e a pobreza. Foi-se o tempo em que a moda de periferia não tinha a sua visibilidade.

Empresas de confecção estão por dentro desse movimento. É possível perceber que as tendências estão invadindo o espaço na sociedade e que as pessoas estão se preocupando cada vez mais com a sua aparência.

As feiras das cidades também acompanham o que está acontecendo no mundo das novelas, nas ruas e nas passarelas, tornando assim, uma grande possibilidade de comercialização das tendências da moda.

Muitas mulheres da periferia têm como referência as personagens das telenovelas, pois essas personagens são vistas como grandes inspirações quando se fala de estilo.

Acessórios, sapatos, roupas, maquiagem… Cada item é escolhido com muito cuidado pelas equipes de figurino das novelas e, não é à toa, que logo caem no gosto do público.

Sinval Marcelino tem 50 anos e há cinco anos é comerciante da feira do Cruzeiro e do Guará. Vende roupa de moda feminina e com preço baixo.

Ele afirma que as maiorias das pessoas que vão à feira, já procuram uma determinada peça que está em alta em alguma novela. “Todas as pessoas já chegam aqui me pedindo uma peça que tal personagem usa na televisão, e várias roupas da minha loja, é de alguma atriz que a gente se inspira e que as fábricas já acompanham todas essas tendências também.”

O comerciante compra os tecidos com as estampas novas, que geralmente já são as tendências, corta e fabrica a peça de acordo com a moda que acompanha através das novelas e nas ruas, além de comprar peças em outras cidades do entorno de Brasília

Sinval diz que não vende roupas masculinas por achar que não tem como conciliar com as roupas femininas, pois a moda das mulheres domina o mercado têxtil “é muita opção que nós temos para a moda feminina, e geralmente homem não tem o costume de comprar muita roupa, na maioria das vezes, são mais as mulheres que compram para eles, por isso decidi vender pra mulherada” afirma o comerciante.

Homens da periferia também possuem estilo pela forte influência do mundo do rap e suas vestimentas. Tênis de marca, roupas, bonés, um corte específico de cabelo, acessórios… São exemplos seguidos pela rapaziada.

A moda é sinônimo de liberdade e atitude. É você se sentir capaz de transferir o que sente não só através das vestimentas. É você se empoderar e se sentir bem com aquilo que você tem.

Há também, pessoas da periferia que fazem a sua própria moda, através da imensidão de possibilidades que os bazares e brechós oferecem, seja no preço ou até mesmo na peça única.

 

Lúcia Gomes em sua em sua loja onde recebe seus clientes do brechó e da costura. Foto: Ricardo Padue

 

A comerciante Lúcia Gomes tem 63 anos e já está há três anos na feira do Cruzeiro, trabalhando como costureira e vendendo roupas de brechó.

“As pessoas que compram roupas no brechó geralmente são mais humildes e que não tem vergonha de comprar roupa usada. Elas encontram aqui um preço mais justo em relação às lojas lá fora” declara Lúcia Gomes.

A proprietária do brechó acredita que qualquer roupa tem o mesmo efeito e utilidade “pra mim, qualquer roupa tem o mesmo efeito de vestir, por isso eu não tenho preconceito se a roupa é de feira ou de brechó”, afirma Lúcia.

Bernardi Silva é cliente do brechó e sempre costuma comprar roupas em feiras  populares além de brechós “as roupas pra mim, são todas iguais, não tem diferença. A pessoa que compra em feira ela só tem dinheiro e quer comprar uma peça, assim como no brechó, mas infelizmente no brechó ainda existe muito preconceito por ser roupa usada” declara a cliente.

Acabou o tempo em que o glamour inatingível das passarelas ditava os rumos da moda de cima para baixo. Mundo afora, as periferias mostram que pouco importa o tamanho da grife, o negócio mesmo é ter estilo.

Quem disse que para estar na moda é preciso ter dinheiro ou copiar o que se vê nas passarelas e nas novelas, está totalmente equivocado. A moda é democrática, é para todos.

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